segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Repensando a fluoretação. Ou: Quando o estado se mete até na composição da água.

por Murray Rothbard

[Este ensaio foi publicado originalmente na edição de Janeiro de 1993 do The Rothbard-Rockwell Report como "Fluoridation Revisited".]


Sim, eu confesso: sou um anti-fluoretacionista veterano, logo – não pela primeira vez – tomo esta posição correndo o risco de me colocar no campos dos “malucos e fanáticos de direita”. Sempre foi um mistério para mim por que ambientalistas de esquerda, que guincham de horror com um pouco de Alar em maçãs, que gritam “câncer” ainda mais absurdamente do que o menino que gritou “lobo”, que odeiam cada aditivo químico conhecido ao homem, ainda assim dão sua aprovação benigna ao fluoreto, uma substância altamente tóxica e possivelmente carcinogênica. E não somente eles deixam as emissões de fluoreto fora de suas críticas, mas endossam sem críticas o massivo e contínuo despejo de fluoreto no suprimento de água da nação.

Primeiro: o caso geral a favor e contra a fluoretação da água. O caso a favor é quase que inacreditavelmente fraco, sendo resumido pelo alegado fato de reduções substanciais de cáries em crianças entre 5 e 9 anos de idade. Ponto. Não existem efeitos alegados para qualquer um mais velho que nove! Para isso toda a população adulta na área fluoretada deve ser submetida a medicação em massa!

O caso contra, fora as evidências dos malefícios específicos do fluoreto, é poderoso e avassalador. 

(1) Medicação compulsória em massa é maligna, assim como socialista. É bastante claro que uma das chaves para qualquer medicação é o controle da dose; pessoas diferentes, com riscos diferentes, necessitam de dosagens individuais, adaptadas para suas necessidades. E porém, com a água compulsoriamente fluoretada, a mesma dose se aplica a todos, e é necessariamente proporcional à quantidade de água que alguém bebe.

Qual é a justificativa médica para um homem que bebe dez copos de água por dia receber a dose de fluoreto dez vezes mais que o homem que bebe somente um copo? Todo o processo é monstruoso assim como idiota.

(2) Adultos, e de fato crianças acima de nove anos, não recebem quaisquer benefícios de sua medicação compulsória, porém ingerem fluoreto proporcionalmente à sua ingestão de água.

(3) Estudos demonstraram que enquanto crianças entre 5 e 9 anos podem reduzir suas cáries pela fluoretação, tais crianças entre os 9 e 12 anos têm mais cáries, tanto que após os 12 anos os benefícios desaparecem. Então, na melhor das hipóteses, a questão se resume a: nós temos que nos submeter aos perigos da fluoretação somente para salvar dentistas da irritação de lidar com crianças com idades entre 5 e 9 anos se contorcendo?

(4) Quaisquer pais que quiserem dar aos seus filhos os benefícios dúbios da fluoretação podem fazê-lo individualmente: dando aos seus filhos pílulas de flúor, com doses reguladas em vez de proporcionadas a esmo de acordo com a sede da criança; e/ou, como todos sabemos, elas podem escovar seus dentes com pastas com flúor adicionado. Que tal um pouco de escolha individual?

(5) Não vamos omitir as devidas referências ao pagador de impostos, que já há muito sofre, sendo obrigado a pagar pelas centenas de milhares de toneladas de fluoreto que são jogadas no suprimento socializado de água a cada ano. Os dias das companhias privadas de água, outrora florescentes nos EUA, já se foram há muito tempo, embora o mercado, nos anos recentes, tenha retornado na forma das garrafas de água que se tornam cada vez mais populares ainda que sejam muito mais caras do que a água socializada de graça.

Nada lunático ou maluco sobre estes argumentos, certo? O suficiente sobre o caso geral a favor e contra a fluoretação. Quando chegamos aos males específicos da fluoretação, o caso contra se torna ainda mais avassalador, assim como macabro.

Durante os anos 1940 e 1950, quando o avanço para a fluoretação estava ocorrendo, as forças a favor usaram o experimento controlado de Newburgh e Kingston, duas cidades vizinhas no estado de Nova Iorque, com demografias quase iguais. Newburgh fora fluoretada e Kingston não, e o poderoso establishment pró-fluoretação trombeteou o fato de que dez anos depois, o índice de cáries de crianças entre 5 e 9 anos em Newburgh era consideravelmente menor do que em Kingston (originalmente, os índices de todas as doenças eram quase iguais em ambos lugares). Certo, mas os antifluoretacionistas levantaram o fato perturbador de que, após dez anos, tanto os índices de câncer quanto de doenças cardíacas eram significativamente maiores em Newburgh. Como o establishment tratou tais críticas? Dispensando-as como irrelevantes, táticas excêntricas de semeadores de medo. Sério?

Por que estes problemas subsequentes e acusações foram ignorados e ultrapassados, e por que a correria para infligir a fluoretação nos Estados Unidos? Quem estava por trás dessa direção, e como os adversários adquiriram a imagem de “direitistas excêntricos”?

Na direção da fluoretação

O direcionamento oficial começou abruptamente logo antes do final da Segunda Guerra Mundial, empurrado pelo Serviço Público de Saúde americano, e então pelo Departamento do Tesouro. Em 1945, o governo federal selecionou duas cidades de Michigan para a condução de um estudo oficial de “15 anos”; uma cidade, Grand Rapids, foi fluoretada, enquanto uma cidade controle foi mantida não fluoretada. (Eu estou em dívida com um artigo revisionista recente sobre fluoretação do escritor médico Joel Griffiths, publicado no jornal sensacionalista de esquerda Covert Action Information Bulletin: “Fluoride: Commie Plot or Capitalist Ploy?” [Fall 1992], pp. 26–28, 63–66.) Porém, antes que cinco anos tivessem passado, o governo matou seu próprio “estudo científico”, ao fluoretar a água da segunda cidade em Michigan. Por quê? Sob a desculpa de que sua ação fora causada por “demanda popular” pela fluoretação; conforme veremos, a “demanda popular” foi gerada pelo próprio governo e pelo establishment. De fato, tão cedo quanto 1946, sob uma campanha federal, seis cidades americanas fluoretavam suas águas, e outras 87 se juntaram à tendência até 1950.

Uma figura chave na direção pela fluoretação bem sucedida foi Oscar R. Ewing, que foi nomeado pelo Presidente Truman em 1947 como chefe da Federal Security Agency (Agência Federal de Segurança), que englobava a Public Health Service (PHS) [Serviço de Saúde Pública], e que depois desabrochou em nosso amado Cabinet Office of Health, Education, and Welfare [Ministério da Saúde, Educação e Bem-estar]. Uma das razões da defesa da fluoretação pela esquerda – em adição a ser medicina socializada e medicação em massa, para eles um bem em si mesmo – foi que Ewing era um certificado esquerdista e Fair Dealer de Truman, além de propositor declarado da medicina socializada e alto oficial da então poderosa Americans for Democratic Action [Americanos pela Ação Democrática], a principal organização de “liberais anti-comunistas”. (N. do T.: Entenda-se por “liberais anti-comunistas”, na verdade, social-democratas mencheviques“Liberais”, nos Estados Unidos, são os esquerdistas em sua maioria pertencentes aos Partido Democrata.) Ewing mobilizou não somente a esquerda respeitável mas também o centro do establishment. A poderosa direção pela fluoretação compulsória foi liderada pela PHS, que logo mobilizou as organizações de dentistas e médicos estabelecidas.

A mobilização, o clamor nacional pela fluoretação, e o rotulamento de seus oponentes com a imagem de malucos de direita, foram todos gerados pelo homem de relações públicas contratado por Oscar Ewing para dirigir a campanha. Pois Ewing contratou ninguém menos que Edward L. Bernays, o homem com a honra dúbia de ser chamado de “pai das relações públicas”. Bernays, o sobrinho de Sigmund Freud, era chamado de “o manipulador de opiniões original”, em um artigo admirado no Washington Post quando da ocasião de seu centésimo aniversário no final de 1991. O fato de que organizações de direita como a John Birch Society corretamente chamaram a fluoretação de “socialismo lento” e culparam o comunismo soviético como a fonte da campanha da fluoretação (não, não os bolcheviques, gente, mas uma aliança menchevique-capitalista de estado, veja abaixo) foi usado pelos bernaysianos para desacreditar toda a oposição.

Conforme um artigo científico retrospectivo apontou sobre o movimento da fluoretação, um de seus dossiês amplamente distribuídos listava entre seus oponentes, “em ordem alfabética, cientistas reputáveis, criminosos condenados, modistas alimentares, organizações científicas e a Ku Klux Klan” (Bette Hileman, “Fluoridation of WaterChemical and Engineering News 66 [August 1, 1988], p. 37; citado em Griffiths, p. 63). Em seu livro de 1928, Propaganda, Bernays revelou os dispositivos que ele usaria: falando sobre o “mecanismo que controla a mente do público”, que pessoas como ele poderiam manipular, Bernays adicionou que “aqueles que manipulam o mecanismo não visto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país (…) nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, nossas ideias sugeridas, em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar ()”. E o processo de manipular líderes de outros grupos, “seja com ou sem sua cooperação consciente”, irá automaticamente influenciar os membros de tais grupos. 

Ao descrever suas táticas como homem de relações públicas para a Beech-Nut Bacon, Bernays conta como ele sugeria para médicos que dissessem publicamente que “faz bem comer bacon. Porque, Bernays adicionou, ele “sabia que uma era uma certeza matemática que um grande número de pessoas iriam seguir os conselho de seus médicos porque ele (o homem de relações públicas) entende a relação de dependência psicológica dos homens para com seus médicos (Edward L. Bernays, Propaganda [New York: Liveright, 1928], pp. 9, 18, 49, 53. citado in Griffiths, p.63). Adicione “dentistas” à equação, e substitua bacon por fluoreto, e você terá a essência da propaganda de Bernays.

Antes desta campanha, o flúor era largamente conhecido pelo público como o principal ingrediente de venenos de insetos e ratos; após a campanha, ele foi amplamente divulgado como um seguro provedor de dentes saudáveis e sorrisos brilhantes.

Depois de 1950 foi só colher os frutos – as forças pró-fluoretação haviam triunfado, e dois terços das reservas nacionais estavam fluoretados. Havia ainda algumas áreas “ignorantes” do país deixadas de fora (menos de 16% da água da Califórnia é fluoretada) e o objetivo do governo federal e da PHS permanece sendo a “fluoretação universal”.

Dúvidas se acumulam

Apesar da vitória relâmpago, porém, dúvidas surgiram e se juntaram na comunidade científica. Fluoreto é uma substância não biodegradável, que, nas pessoas, acumula-se nos dentes e ossos – talvez fortalecendo os dentes das crianças; mas e os ossos humanos? Dois problemas cruciais de fluoretos – fragilidade e câncer – começaram a aparecer em estudos, somente para serem sistematicamente bloqueados pelas agências governamentais. Tão cedo quanto 1956, um estudo federal descobriu quase duas vezes mais defeitos ósseos pré-malignos em jovens do sexo masculino em Newbergh quando comparado à não-fluoretada Kingston; mas este achado foi rapidamente dispensado como “espúrio”.

Estranhamente, apesar do estudo de 1956 e de evidências carcinogênicas surgindo desde os anos 1940, o governo federal nunca conduziu seus amados estudos carcinogênicos em animais para o fluoreto. Finalmente, em 1975, o bioquímico John Yiamouyiannis e Dean Berk, um oficial aposentado do próprio National Cancer Institute [NCI – Centro Nacional do Câncer] do governo federal, apresentaram um artigo antes do encontro anual da American Society of Biological Chemists [Sociedade Americana dos Bioquímicos]. Este artigo reportava um aumento de 5 a 10 porcento nas cidades americanas que haviam fluoretado suas águas. Os achados foram disputados, mas ajudaram a começar audiências no congresso dois anos depois, quando o governo revelou a congressistas chocados de que ele jamais havia testado o fluoretado para o câncer. O congresso ordenou à NCI que conduzisse tais testes.

Falemos de enrolação! Incrivelmente, a NCI demorou doze anos para terminar seus testes, achando “evidências equívocas” que o fluoreto causava câncer ósseo em ratos machos. Sob mais ordens do congresso, a NCI estudou tendências de câncer nos EUA, e achou evidência em todo o país de “aumento no índice de câncer ósseo e de juntas em todas as idades”, especialmente nos jovens, em condados que haviam fluoretado suas águas, mas tal aumento não foi verificado em condados “não-fluoretados”.

Em estudos mais detalhados, em áreas do estado de Washington e em Iowa, a NCI descobriu que entre os anos 1970 e 1980 o câncer ósseo para jovens do sexo masculino abaixo de 20 anos havia aumentado 70% nas áreas fluoretadas, mas diminuído 4% nas áreas não fluoretadas. Parece bem conclusivo para mim, mas a NCI colocou alguns estatísticos espertos para trabalhar nos dados, para concluir que tais achados, também, eram “espúrios”. A disputa sobre esta reportagem levou o governo federal a empregar um de seus favoritos expedientes em virtualmente qualquer área: uma comissão alegadamente especialista, bipartidária e “sem valores”.

O governo já havia feito a parte da comissão em 1983, quando estudos perturbadores levaram nossa velha amiga PHS a formar uma comissão de “especialistas de classe mundial” para revisar os dados sobre a segurança de fluoretos na água. Interessantemente, o painel achou para sua profunda preocupação de que a alegada evidência da segurança do fluoreto mal existia. O painel de 1983 recomendou precaução na exposição de crianças ao fluoreto. Interessantemente, o painel recomendou que o conteúdo de flúor não fosse maior que duas partes por milhão para crianças até nove anos, por causa de preocupações com o efeito do flúor nos esqueletos das crianças e potenciais danos cardíacos.

O presidente do painel, Jay R. Shapiro do NIH, advertiu os membros, porém, que a PHS poderia “modificar” os achados, uma vez que “a reportagem lidava com questões políticas sensíveis”. Com certeza, quando o cirurgião geral Everett Koop lançou a reportagem oficial um mês depois, o governo federal havia jogado fora as mais importantes conclusões e recomendações, sem consultar o painel. De fato, o painel nunca recebeu cópias da versão final alterada. Todas as alterações do governo foram na direção pró-fluoretação, alegando que não haviam quaisquer “documentações científicas” de problemas com níveis de fluoreto abaixo de 8 partes por milhão.

Em adição aos estudos de câncer ósseo no final dos anos 1980, evidências estão se acumulando de que o fluoreto leva a fraturas ósseas. Nos últimos dois anos, não menos que oito estudos epidemiológicos indicaram aumento nos índices de fraturas em homens e mulheres de todas as idades. Realmente, desde 1957, o índice de fraturas em rapazes aumentou agudamente nos EUA, e o seu índice de fraturas de quadril está entre os maiores do mundo. De fato, um estudo do tradicionalmente pró-fluoreto 
Journal of the American Medical Association (JAMA), em doze de agosto de 1992, descobriu que mesmo “baixos níveis de fluoreto podem aumentar o índice de fraturas ósseas nos idosos. A JAMA concluiu que “é apropriado repensar a questão da fluoretação da água”.

Claramente, era a hora certa para outra comissão federal. Durante 1990-91, uma nova comissão, presidida pelo oficial veterano da PHS e pró-fluoretacionista de longa data Frank E. Young, previsivelmente concluiu que “nenhuma evidência” fora achada associando o fluoreto ao câncer. Sobre fraturas ósseas, a comissão candidamente disse que “mais estudos são necessários”. Mas nem outros estudos nem procura espiritual foram necessários para a sua conclusão: “A PHS dos EUA deve continuar dando suporte à fluoretação ideal da água”. Presumivelmente, eles não concluíram que “ideal” significava zero.

Apesar da enrolação de Young, dúvidas continuaram crescendo mesmo dentro do governo federal. James Huff, um diretor do National Institute of Environmental Health Sciences [Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental], concluiu em 1992 que animais no estudo governamental desenvolveram câncer, especialmente câncer ósseo após receberem fluoreto – e não havia nada de “equívoco” sobre sua conclusão.

Vários cientistas da Environmental Protection Agency (EPA) [Agência de Proteção Ambiental] se viraram para o alarme do anti-fluoretacionista e toxicologista de William Marcus de que o fluoreto causa não somente câncer, mas também fraturas ósseas, artrite e outras doenças. Marcus menciona, também, que, um estudo não publicado do Departamento de Saúde de New Jersey (um estado em que somente 15% da população recebe água fluoretada) mostra que o índice de câncer ósseo entre jovens do sexo masculino é nada menos que seis vezes maior em áreas fluoretadas que em áreas não-fluoretadas.

Mesmo entrando em dúvida está a antiga sacra ideia que a água fluoretada ao menos reduz cáries em crianças de cinco a nove anos de idade. Diversos pró-fluoretação altamente elogiados súbita e amargamente a condenaram quando mais estudos levaram-nos a crer que os benefícios dentais realmente eram desprezíveis. O mais proeminente pró-fluoretacionista da Nova Zelândia era seu principal dentista, o Dr. John Colquhoun.

Como presidente do Comitê para a Promoção da Fluoretação (Fluoridation Promotion Committee), Colquhoun decidiu coletar estatísticas para mostrar aos duvidosos os grandes méritos da fluoretação. Para seu choque, ele descobriu que a percentagem de crianças sem problemas dentais era maior em áreas não-fluoretadas da Nova Zelândia do que na parte fluoretada deste país. O departamento nacional de saúde se recusou a permitir que Colquhon publicasse tais achados, e o expulsou do posto de diretor dental. Similarmente, o maior pró-fluoretacionista na Columbia Britânica, Richard G. Foulkes, concluiu que a fluoretação é não somente perigosa, mas que não é sequer efetiva em reduzir problemas dentais. Foulkes foi denunciado por antigos colegas como um propagandista “promovendo as bobagens dos anti-fluoretacionistas”.

Por que a direção fluoretacionista?

Uma vez que o caso pela fluoretação compulsória é tão fraco, e o caso contra tão poderoso, o último passo é perguntar: Por quê? Por que o PHS se envolveu em primeiro lugar? E como esta coisa toda começou? Aqui devemos manter nossos olhos no papel essencial de Oscar R. Ewing, porque Ewing era muito mais que um Fair Dealer social-democrata.

O fluoreto há muito é reconhecido como um dos mais tóxicos elementos achados na crosta terrestre. Fluoretos são subprodutos de diversos processos industriais, sendo emitidos no ar e na água, e provavelmente a maior fonte deste subproduto é a indústria do alumínio. Entre os anos 1920 e 1930, flúor era um objeto de cada vez mais regulações e processos judiciais. Em particular, em 1938, a importante e relativamente nova indústria do alumínio estava sendo colocada no ritmo da guerra. O que fazer se seu maior subproduto é um veneno perigoso?

A hora para o controle de danos havia chegado; era ainda melhor para reverter a imagem pública desta substância ameaçadora. O secretário do tesouro do Public Health Service  não devemos nos esquecer que sob a jurisdição do Departamento do Tesouro —, durante os anos 1920 e até 1931, era ninguém menos que o bilionário Andrew J. Mellon, fundador e chefe dos poderosos interesses Mellon, “Mr. Pittsburgh, e fundador e chefe virtual da Corporation of America (ALCOA), a empresa dominante na indústria do alumínio.

Em 1931, a PHS mandou um dentista de nome H. Trendley Dean para o oeste para estudar os efeitos da concentração de água naturalmente fluoretada nos dentes das pessoas. Dean descobriu que cidades com alto nível de flúor natural pareciam ter menos cáries. Esta notícia galvanizou vários cientistas do Mellon à ação. Em particular, o Instituto Mellon, laboratório de pesquisas da ALCOA em Pittsburgh, financiou um estudo em que o bioquímico Gerald J. Cox fluoretou alguns ratos de laboratório, decidindo então que cáries naqueles ratos haviam sido reduzidas e imediatamente concluindo que “o caso (que flúor reduz cáries) deve ser tido como provado”. Ciência instantânea!

No ano seguinte, 1939, Cox, o cientista da ALCOA, trabalhando para uma empresa assolada por alegações de danos causados pelo flúor, fez sua primeira proposta pública pela fluoretação da água. Cox continuou criando urgência pela fluoretação no país. Enquanto isso, outros cientistas financiados pela ALCOA trombeteavam a alegada segurança dos fluoretos, em particular o Laboratório Kettering da Universidade de Cincinnati.

Durante a segunda guerra mundial, pedidos de indenização por emissões de fluoreto se juntaram, conforme o esperado, na proporção da grande expansão da produção de alumínio durante a guerra. Mas a atenção quanto a esses pedidos foi distraída, e logo antes do fim da guerra, o PHS começou a tentar forçar a fluoretação compulsória da água. Enquanto o direcionamento pela fluoretação da água conseguiu dois objetivos de uma só vez: ele transformou a imagem do flúor de uma praga para uma benção que fortaleceria os dentes de todas as crianças, e criou uma demanda monetária substancial para fluoretos que seriam descartados anualmente nas águas da nação.

Uma nota de rodapé interessante nesta história é que o fluoretos na água naturalmente fluoretada vêm do fluoreto de cálcio, enquanto que a substância descartada em todas as localidades é, porém, fluoreto de sódio. A defesa do establishment de que “flúor é flúor” se torna inconvincente quando nós consideramos dois pontos: (a) que o cálcio é notoriamente bom para ossos e dentes, e que o efeito anti-cárie da água naturalmente fluoretada pode se dever ao cálcio e não ao fluoreto, e; (b) que o fluoreto de sódio, por acaso, é o principal subproduto da produção de alumínio.

O que nos leva a Oscar R. Ewing. Ewing chegou em Washington em 1946, logo após a campanha inicial da PHS começar, chegando ali como um conselheiro de longa data, agora chefe-conselheiro da ALCOA, ganhando a então astronômica quantia de U$ 750.000 por ano (algo por volta de U$ 7,000,000 em dólares de 1993). Um ano depois, Ewing tomou conta da Agência Federal de Segurança (Federal Security Agency), que incluia a PHS, e colocou em prática a campanha bem sucedida pela fluoretação da água. Alguns anos depois, tendo sido bem-sucedido nesta campanha, Ewing saiu da vida pública, retornou à vida privada, incluindo seu cargo de conselheiro chefe na ALCOA.

Existe uma lição instrutiva nessa pequena saga, uma história de como o estado de bem-estar social chegou aos EUA. Ele chegou como uma aliança entre três grandes forças: ideólogos social-democratas, burocratas tecnocráticos ambiciosos e grandes homens de negócio procurando privilégios concedidos pelo estado. Quanto à saga da fluoretação, nós poderíamos chamar o processo todo de “socialismo-ALCOA”. O estado de bem-estar social resulta não no bem-estar da maioria da sociedade, mas no destes grupos particularmente mercenários e exploradores.

Leia também:

Fluoride Follies por Donald W. Miller (em inglês)

Traduzido por Daniel de Freitas CastroO texto original pode ser lido aqui.

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